4 verdades incontornáveis reforçadas pela pandemia Covid-19

Um ano antes da atual pandemia, tínhamos traçado na Schroders um conjunto de tendências - verdades incontornáveis - que os investidores enfrentariam na próxima década. Hoje, acreditamos que a Covid-19 está a acentuar estas tendências, com novos desafios para o crescimento, mais pressão sobre as finanças públicas e as desigualdades, aumento mais rápido da transformação tecnológica e um crescendo das ameaças populistas.
Se é certo que a pandemia está já a afetar o comportamento das pessoas e empresas, moldando as perspetivas de médio prazo para economias e mercados, face a estas verdades incontornáveis, também os investidores vão ter de ser ainda mais ágeis para alcançar seus objetivos.

1: taxas de juros baixas

No contexto de uma crise de saúde, que é também uma crise económica, ambas com perfil para se prolongarem, os comportamentos das pessoas e empresas estão a alterar a anterior relação entre a poupança e o consumo e investimento. Agora mais conscientes da vulnerabilidade dos seus rendimentos, famílias e empresas mostram-se mais preocupadas em construir algumas reservas que as façam sentir seguras e menos dispostas a consumir ou a investir.
A primeira consequência desta combinação entre taxas de poupança mais elevadas e menor investimento é um crescimento mais lento, uma vez que este enfraquecimento do investimento dificulta a recuperação da atividade e produtividade, resultando num crescimento mais lento do PIB.
Com taxas de juros tão baixas na fase anterior à pandemia, não haverá agora pressão nem latitude para que aumentem, devendo permanecer baixas em termos reais por um longo período.

2: despesas de saúde a subir

A média da despesa de saúde, enquanto percentagem do PIB, tem vindo a aumentar na OCDE devido ao envelhecimento da população e a situação é agora acentuada pela Covid-19, que pressiona os governos a investir na capacidade e resiliência dos sistemas de saúde públicos.
Nos EUA, as despesas com a saúde aumentaram de 13% para 17% do PIB desde 2000, o nível mais alto da OCDE, e na Europa, representam 11% do PIB, percentagem que cresceu significativamente nos últimos 20 anos. Aumentar ainda mais estas despesas é um desafio redobrado para as finanças públicas e o FMI prevê que a dívida pública dos países do G20 suba aos 150% do PIB até final de 2021.
Os governos enfrentarão, assim, a pouco agradável decisão de aumentar impostos ou cortar despesa pública para conter os défices orçamentais. Parece-nos mais provável que optem pela via financeira, mantendo os juros abaixo da taxa de crescimento nominal de PIB para melhorar a relação divida-rendimento.

3: Populismo a crescer

Um pouco por todo o mundo, a ortodoxia económica vigente tem sido desafiada por movimentos de cariz populista, que optam por reduzir a dívida pela via da inflação e não da austeridade.
O populismo, uma das forças disruptivas que considerávamos nas nossas verdades incontornáveis, significa, neste contexto, que os governos se afastam das ainda vigentes diretrizes políticas e económicas - nomeadamente nas metas de inflação - para adotar políticas que lhes permitam, por exemplo, a impressão de dinheiro a aplicar diretamente na economia.
O resultado seria uma inflação mais alta que, se levada suficientemente longe, poderia dar lugar a uma hiperinflação. Os rácios da dívida em relação ao PIB melhorariam, mas como bem saberão aqueles que se recordam da década de 70, estas políticas não tornam os governos propriamente populares: uma inflação mais alta destrói o valor real das poupanças, reformas e pensões e dada a (cada vez maior) fatia do eleitorado sénior, este é um passivo eleitoral com que nenhum governo estará interessado em lidar.

4: transformação tecnológica a acelerar

Num cenário mais propício ao populismo, perspetiva-se que o crescimento real dos salários permaneça fraco e que a desigualdade de rendimentos tenda a ampliar-se ainda mais. Este gap poderá ser impulsionado pela aceleração tecnológica pós crise.
Por um lado, sabemos que "a necessidade aguça o engenho" e, como vimos, o confinamento já “aguçou" as vendas online e todos os aspetos do trabalho remoto. O retalho urbano ressentiu-se e os escritórios poderão ser os próximos, agora que as empresas se transformaram para viabilizar o trabalho à distância.
Por outro lado, a experiência da Covid-19 está a levar muitas empresas a repensar as suas cadeias de abastecimento. As restrições às viagens e a necessidade de tornar mais resilientes estas cadeias ditou a necessidade de ampliar o leque de fornecedores e, em alguns casos, de procurar que fornecimentos e produção estejam mais “perto de casa", o que a prazo será mais um golpe na globalização.
Esta relocalização implica mais desemprego nos mercados emergentes e mais automação nos mercados desenvolvidos, onde custos da mão de obra mais elevados tendem a impedir o aumento da contratação. Inteligência artificial (IA) e robótica serão, provavelmente, duas das áreas que vão acelerar.
No longo prazo, é expectável que esta aceleração tecnológica contribua para o aumento da produtividade, desde logo pelas reduções com viagens e grandes escritórios. No imediato, porém, acarreta destruição de empregos e empresas também nos mercados desenvolvidos, em setores como os transportes aéreos, as agências de viagens ou as gestoras de imobiliário empresarial. Da mesma forma, gera redundância de funções, com necessidade de requalificação de muitos trabalhadores e a inadaptação de outros, o que aumentará a insatisfação pública e a procura por soluções populistas.

Mário Pires
Diretor de clientes institucionais e do mercado português Schroders

Fonte: BCP MIllennium - Schroders